Relato de um Palmarense

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Tamanha foi a minha emoção ao ler este belo relato de um Palmarense apaixonado pela Terra dos Poetas!!!


POSTADO ÀS 10:07 EM 21 DE Junho DE 2010

Por Jônatas Campos*

Escrevo com um olhar de um jornalista que vive no Recife há 12 anos, mas que nasceu e se criou em Palmares, uma das cidades mais devastadas pela enchente do Rio Una. Desde a infância convivi com enchentes em minha cidade. Lembro bem dos meus pais escolhendo qual dos móveis salvar e qual deixar em casa, por conta da rapidez com que as águas do Rio Una subiam. Lembro das semanas subseqüentes com falta d’água e lama para limpar. Lembro das portas de casa sem fechar, inchadas por ficarem submersas por muitas horas.

O Una, que em Tupi quer dizer “o que tem águas escuras”, hoje é poluído pelos esgotos da região, pelas usinas de cana-de-açúcar e oprimido pelos aterramentos desordenados de suas margens. Quando recebe quantidade adiciona de águas das chuvas e da verte das barragens locais, retoma o que lhe foi tirado; seu espaço natural. E causa estragos. “Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem”, diz um trecho do poema de Bertold Brecht.

As imagens que aparecem nos jornais de hoje e do final de semana, desde as fotos aéreas de Roberto Pereira ao registro de Daniel Guedes, impressionam pela plástica de terra arrasada, pelos móveis pendurados nos fios elétricos, pela cor de barro das águas revoltas e pelo desespero nos rostos das pessoas. Aos filhos daquela terra, as imagens machucam muito mais. É porque no lugar daquele entulho todo havia nossa vida diária, nossos costumes, nossos espaços públicos e nossas lembranças.

No lugar daquela cratera imensa fotografada pelo repórter do JC, antes existia a Praça Ismael Gouveia, lugar certo para o encontro dos namorados e praça mais tranqüila para as mães levaram as crianças para passear. As árvores eram baixinhas e rigorosamente podadas pelos jardineiros da prefeitura para ficarem naqueles formatos arredondados. Hoje existe um enorme caminhão e um carro de passeio jogados no buraco que ficou no lugar da praça. O Ginásio Municipal, colégio quase centenário e lugar onde tantos estudaram (eu, por exemplo) e se formaram, hoje é um monte de ruínas.
Pela ponte da BR 101 íamos para Água Preta e para as praias; São José, Tamandaré, Barra Grande, Maragogi. Pela ponte de Japaranduba, seguíamos para Catende e Caruaru. As pontes estão destruídas.

Com a convivência com antigas enchentes, os palmarenses criaram um costume de pendurar os móveis nos caibros dos telhados e abrigar-se nas casas dos parentes, esperando as águas retornaram para o leito do rio. Também eram nas casas com primeiros-andares que o dono e vizinhos empilhavam seus pertences (em muitas ocasiões permaneciam lá), em movimento ágil e solidário, também a espera do desnível das águas.

Mas agora foi diferente. Os primeiros andares não foram suficientes. Os caibros dos telhados, muito menos, porque o rio elevou-se 13 metros acima do seu leito. Relatos do site de notícias local (www.girope.com.br) descrevem pedidos de socorro durante a madrugada da sexta-feira, 18, para o sábado, 19 de junho. Liguei para amigos e confirmei a informação. Quem estava perto dos locais atingidos passou a madrugada atormentado pelos pedidos de socorro que vinha de locais distantes e escuros pela falta de energia elétrica.

A cidade ainda não tem água potável nos canos e a energia elétrica aos poucos é restabelecida. Há uma lama negra e densa sobre as ruas e dentro das casas. O costume com enchentes pregressas lembra: é preciso tirar a lama urgentemente das casas, porque quando ela seca fica parecendo cimento duro, ao mesmo tempo em que seu mau cheiro aumenta. Também é preciso tirá-la das ruas, porque em pouco tempo ela torna-se uma poeira fedida e insuportável. Com o volume de lama, os boeiros e galerias pluviais ficam entupidos. Se houver outras chuvas, as águas, por poucas que sejam, não têm para onde escorrer.

É preciso retomar o cotidiano da cidade o mais rápido possível, para que o desespero e a desesperança não atinjam a alma daquela gente tão batalhadora.

Na coletiva à imprensa o Governador Eduardo Campos anunciou a liberação imediata de R$ 50 milhões para as ações emergenciais. Já garantiu mais de 140 tratores e caminhões para retirar os entulhos e já fez compras extras de alimentos, colchões e mantimentos de primeira ordem.

Mas o que me deu esperança não foram as ações emergências. O mais importante é o compromisso do governador, diante da imprensa, de implantar alternativas que realmente solucionem o problema das enchentes na região. Não permitir a reconstrução irregular de moradias nas margens do rio. Iniciar a construção de barragens nos rios da região para conter a velocidade das águas. Destinar áreas nos planos diretores dos municípios para a construção de moradias pelo Programa Minha Casa Minha Vida. Garantir saneamento básico.  Reconstruir as pontes com vãos maiores para liberar o curso das águas.

Gostaria muito que, com esse compromisso, o povo de Palmares e da região perdesse um antigo costume. O costume de conviver com enchentes e com os prejuízos financeiro e sentimental que ficam depois que as águas passam.

*Jônatas Campos é jornalista e palmarense
Twitter: @jonatascampos

1 comentários:

Unknown disse... [Responder Comentário]

Só ontem eu vi uma reportagem completa sobre Palmares. Parece que de todas as cidades, foi a mais devastada. Estamos aqui prontos para prestar toda a solidariedade que couber. Abraço grande. Paz e bem.